Seu Mércio andava sumido.
Depois de uma temporada em retiro, necessária para descansar a cabeça e manter certa distância dos acontecimentos da política concordiense, resolveu sair da toca.
E o motivo foi o desligamento de uma assessora parlamentar da Câmara de Vereadores de Concórdia, depois de cerca de um ano e meio de trabalho.
Seu Mércio resolveu olhar os números.
Durante o período em que permaneceu no gabinete de uma vereadora, a profissional participou de diferentes atividades de aperfeiçoamento e assessoramento, incluindo cursos realizados fora de Concórdia.
Somente em diárias relacionadas aos deslocamentos, foram 22, que somaram R$ 20.538,00.
Seu Mércio pegou a calculadora.
Considerando cerca de um ano e meio de trabalho, é o equivalente a aproximadamente R$ 1 mil por mês em diárias para atividades que contribuíram para sua qualificação e atuação profissional.
E isso sem colocar na conta eventuais inscrições nos cursos e outras despesas.
Seu Mércio não vê problema algum nisso.
Muito pelo contrário.
Investir na qualificação de quem trabalha no serviço público é importante. Quanto mais preparado o profissional, melhor deveria ser o serviço entregue ao cidadão.
O que despertou a curiosidade foi justamente o que aconteceu depois.
Após cerca de um ano e meio acumulando experiência, participando de cursos e buscando novos conhecimentos, a assessora foi desligada.
E aí Seu Mércio pensou na iniciativa privada.
Quando uma empresa investe cerca de R$ 1 mil por mês na qualificação de um funcionário e chega a aproximadamente R$ 20 mil em cerca de um ano e meio, normalmente procura reter aquele profissional para aproveitar o conhecimento adquirido.
Nas universidades, por exemplo, é comum existirem regras de permanência para professores que recebem apoio institucional para mestrado ou doutorado. A instituição investe e procura preservar o retorno daquele investimento.
No caso do poder público, Seu Mércio ficou pensando:
se a profissional passou um ano e meio se qualificando e justamente quando estava mais experiente deixou o cargo, quem ficou com o investimento?
E quando chegar uma nova assessora?
Novos cursos? Novas viagens? Novas diárias?
Na iniciativa privada, isso se chama retenção de talentos.
E há uma diferença importante: na empresa privada, quem decide investir está administrando o dinheiro da própria empresa.
No setor público, a conta é paga pelo cidadão.
Depois dessa, Seu Mércio ficou com duas dúvidas.
Quanto vai custar preparar o próximo talento?
E uma mais intrigante:
o que teria quebrado o encanto e o que houve com o sapatinho da Cinderela?






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