Parque Sarcedo: quando Concórdia precisa decidir que cidade quer ser nas próximas décadas

A discussão sobre o Parque Sarcedo, denominado Parque Científico Osório e Lucy Furlan, ultrapassa a simples construção de uma área de lazer. O debate, na verdade, envolve modelo de cidade, qualidade de vida, planejamento urbano e visão de futuro.

 

O requerimento apresentado pelo vereador Evandro Pegoraro (PT), pedindo informações oficiais sobre o andamento do projeto, recoloca em pauta uma proposta que acabou sendo engavetada ao longo da atual gestão municipal.

 

E talvez este seja exatamente o ponto central da discussão.

 

O projeto nasceu ainda no governo do ex-prefeito Rogério Pacheco, após a doação de uma área nobre ao município pela família Furlan e pela BRF. Mais de 20 mil metros quadrados destinados à implantação de um parque público em uma das regiões mais valorizadas de Concórdia.

 

A ideia original previa um investimento inicial da prefeitura, na ordem de R$ 2,7 milhões, para execução da primeira etapa. A partir dali, o plano era buscar parcerias público-privadas para ampliar a estrutura ao longo do tempo.

 

Ou seja: nunca se tratou de a prefeitura desembolsar sozinha os cerca de R$ 6,7 milhões estimados para o projeto completo.

 

Mas quando o prefeito Edilson Massocco assumiu o comando do município, o entendimento político foi outro. O parque deixou de ser prioridade.

 

E é justamente aí que surge a reflexão.

 

Concórdia cresceu economicamente. Tornou-se referência industrial, agroindustrial e empresarial. Tem um povo trabalhador, forte e produtivo. Mas continua extremamente limitada quando o assunto é espaço público de convivência e lazer.

 

Basta olhar ao redor.

 

Chapecó, por exemplo, investiu fortemente em parques urbanos e hoje possui múltiplos espaços de convivência espalhados pela cidade. Curitiba transformou áreas verdes e equipamentos urbanos em símbolos de qualidade de vida reconhecidos internacionalmente.

 

Aliás, Curitiba talvez seja o maior exemplo brasileiro de como planejamento urbano não pode ser tratado apenas como gasto público.

 

O ex-prefeito e urbanista Jaime Lerner compreendeu isso décadas atrás. Projetos como o Jardim Botânico, a Ópera de Arame e a Pedreira Paulo Leminski ajudaram a transformar Curitiba em referência mundial em urbanismo, turismo e qualidade de vida.

 

Parques não são apenas locais para caminhada ou passeio.

 

São investimentos em saúde pública, convivência familiar, valorização imobiliária, preservação ambiental e pertencimento coletivo.

 

São espaços que ajudam a construir identidade urbana.

 

Talvez Concórdia ainda não tenha entendido completamente isso.

 

Existe uma visão muito imediatista quando o assunto envolve investimentos públicos. Muitas vezes, obras de impacto visual rápido acabam sendo priorizadas, enquanto projetos estruturantes de longo prazo ficam pelo caminho.

 

O Parque Científico Osório e Lucy Furlan talvez seja vítima justamente dessa lógica.

 

Evidentemente, toda administração precisa definir prioridades. Isso faz parte da gestão pública. Mas também é legítimo que a sociedade discuta quais prioridades ajudam efetivamente a construir uma cidade melhor para as próximas gerações.

 

Porque, no fim das contas, a pergunta é simples:

 

Concórdia quer apenas crescer economicamente ou também pretende evoluir como cidade para viver?

 

O debate levantado agora pelo requerimento do vereador Evandro Pegoraro talvez seja uma oportunidade importante para a comunidade voltar a refletir sobre isso.

 

E refletir sobre cidade nunca deveria ser perda de tempo.