Mobilização nas ruas e nas redes sociais, articulação política e crescimento da votação marcaram a disputa no segundo turno
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições, realizado no domingo (25), e vai governar o Brasil pela quarta vez.
Na minha avaliação, alguns fatores ajudam a entender o resultado. Lula aumentou sua votação em 10,3 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turno.
Em Santa Catarina, considerado um dos estados mais bolsonaristas do país, o presidente ampliou sua votação em torno de 300 mil votos. Em São Paulo, o crescimento foi de aproximadamente 2,6 milhões de votos. O Sudeste concentrou a maior parcela desse avanço: cerca de 4,8 milhões de votos.
Esses números também mostram uma diminuição da abstenção e dos votos brancos e nulos.
Mobilização nas ruas e comunicação
Na minha opinião, a candidatura de Lula foi mais eficaz no segundo turno, sobretudo do ponto de vista da comunicação.
Num primeiro momento, vimos uma movimentação de rua que há muito tempo o PT não fazia. E essa mobilização não surgiu de dentro da campanha: surgiu de fora, com estudantes universitários e pessoas da terceira idade.
Quando se fala em comunicação e articulação política, há alguns nomes importantes a serem destacados na campanha do presidente.
Um deles é Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí. O estado deu a maior votação proporcional a Lula e não elegeu nenhum deputado estadual nem federal do PL. É um estado onde o PT é muito forte.
Rafael Fonteles foi chamado para atuar no comando da campanha junto com Rui Costa, senador eleito pela Bahia e um dos responsáveis pela coordenação da campanha de Jerônimo Rodrigues, que venceu ACM Neto.
Outro nome é Camilo Santana, senador pelo Ceará e ex-ministro da Educação. Camilo foi uma das lideranças importantes para que o PT derrotasse Ciro Gomes no Ceará. E Ciro é um nome expressivo da política cearense.
Na comunicação digital, um dos nomes que merecem destaque é André Janones, deputado federal por Minas Gerais. Reeleito com cerca de 80 mil votos, ele foi responsável pela criação do canal Exército do Lula, que reuniu mais de 11 milhões de pessoas.
Do outro lado estava Nikolas Ferreira, também deputado federal por Minas Gerais e apoiador de Flávio Bolsonaro, que recebeu cerca de 3 milhões de votos.
A comparação chama a atenção: embora Nikolas tenha tido uma votação muito superior à de Janones, a mobilização construída pelo deputado em favor de Lula no segundo turno, na minha avaliação, deixou a atuação digital de Nikolas inexpressiva diante do alcance do Exército do Lula.
Essa é uma das linhas de raciocínio que apresento para explicar o resultado.
Flávio Bolsonaro e as alianças
Outra linha de raciocínio, que faço por minha conta e risco, tem relação com uma falta de humildade da candidatura de Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Flávio procurou candidatos que havia derrotado no primeiro turno, como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite. Nos estados, porém, na minha avaliação, a campanha procurou poucas lideranças.
Em Santa Catarina, por exemplo, conforme as informações que tenho, João Rodrigues não foi convidado para estar junto na candidatura. Talvez a coordenação da campanha entendesse que isso não fosse necessário.
No Paraná, também segundo as informações de que disponho, Ratinho Júnior não foi convidado para entrar na campanha. Ele e João Rodrigues apoiaram Flávio por livre e espontânea vontade.
Em Curitiba, o ex-prefeito Rafael Greca, que concorreu a vice na chapa de Ratinho Júnior, apoiou a candidatura de Lula no segundo turno.
No Rio Grande do Sul, lideranças como Zucco e Marcel van Hattem também entraram na campanha de Flávio.
Na minha leitura, o PL entendeu que não precisava de outras lideranças para vencer o segundo turno, até porque havia ganhado o primeiro por uma diferença de aproximadamente 2,5 milhões de votos.
Enquanto isso, o PT e o presidente Lula trabalharam naquilo que foi possível para ampliar apoios e conquistar votos.
Os desafios do próximo governo
Agora, a vitória traz um grande desafio para o presidente reeleito, especialmente em relação às propostas apresentadas durante a campanha.
Entre elas estão o Bolsa Família, o Pé-de-Meia para estudantes, o Pé-de-Meia para professores, medidas relacionadas aos microempreendedores individuais e a mudança da escala de trabalho 6 por 1 para 5 por 2.
Alguns entendem essas propostas como eleitoreiras. Outros as veem como estratégia de campanha para vencer as eleições. Na prática, a estratégia acabou dando certo, mas essas medidas terão peso na economia.
Tenho dito que uma das primeiras decisões que Lula precisa tomar é indicar, o mais rápido possível, quem será o ministro da Fazenda no quarto governo.
Alguns entendem que o escolhido deveria ser o vice-presidente reeleito, Geraldo Alckmin. Vamos ver.
De um lado, na minha opinião, faltou humildade à coordenação e à campanha de Flávio Bolsonaro. Na outra ponta, a mobilização nas ruas e nas redes ajudou a dar a vitória ao presidente Lula.
É o que eu penso, respeitando também aqueles que pensam diferente.
Douglas Fortes é jornalista e editor do Página Quatro.






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