Seu Mércio e as queridinhas do momento: as urnas eletrônicas

O telefone tocou depois da apuração da eleição de domingo. Era seu Mércio, ligando diretamente da Oktoberfest. Com música e barulho de festa ao fundo, foi logo perguntando:

 

— Douglas, tu conhece alguém que ainda esteja desconfiado das urnas eletrônicas? Se conhecer, me apresenta. Estou procurando alguém para uma pauta.

 

— Seu Mércio, o senhor está na Oktoberfest e preocupado com urna?

 

— Claro! Aqui o pessoal brinda com o chope. Lá fora, tem gente brindando com a máquina que queria aposentar quatro anos atrás.

 

Perguntei o motivo daquela curiosidade.

 

— Ué, na eleição passada era uma gritaria. A urna não prestava, ninguém podia confiar, tinha que mudar tudo. Agora vejo o pessoal comemorando os votos, agradecendo aos eleitores e compartilhando o resultado que saiu da máquina.

 

Seu Mércio fez uma pausa.

 

— Será que melhorou a urna ou só melhorou o resultado para quem estava desconfiado?

 

A conversa é uma sátira, mas a pergunta merece reflexão. A confiança no processo eleitoral não pode depender de quem ganhou. A urna que registra a vitória de um candidato também registra a derrota de outro.

 

A mudança no ambiente tem um indicador concreto. Segundo o TSE, as denúncias relacionadas à integridade eleitoral e à possível supressão do voto caíram de 18.487, em 2022, para 2.604, em 2026, considerando o período de agosto até a véspera da votação. Uma redução de aproximadamente 86%. 

 

Contei isso ao seu Mércio.

 

— Então não foi só impressão minha. A desconfiança perdeu bastante voto nessa eleição.

 

Até Donald Trump elogiou a rapidez da apuração brasileira, destacando que os resultados foram apresentados no mesmo dia da votação. O elogio foi à velocidade da contagem, mas seu Mércio enxergou ali mais um motivo para provocar. 

 

— Capaz de aparecer gente que antes queria aposentar a urna e agora quer tirar uma foto abraçada nela.

 

Em Santa Catarina, a totalização terminou às 21h55 de domingo. Na mesma noite, às 22h35, o TRE-SC homologou os resultados. No Teste de Integridade realizado na Alesc, 10.300 votos previamente preenchidos em cédulas foram digitados em 25 urnas. A comparação apresentou correspondência entre os votos em papel e os registros dos equipamentos, conforme o tribunal. 


Rapidez e satisfação com o resultado não substituem fiscalização. Auditorias, transparência e cobrança de explicações precisam continuar, inclusive quando o nosso candidato vence.

 

Minha leitura é que a urna eletrônica saiu fortalecida deste domingo. Seu Mércio, porém, ainda tinha um assunto antes de voltar para a festa.

 

— E o teu colega radialista Garotinho, hein, Douglas? Pode acabar ajudando a eleger teu xará, o Douglas Ruas, lá no Rio.

 

Anthony Garotinho (Republicanos), que disputou com a candidatura sub judice, desistiu nesta segunda-feira do recurso no TSE para tentar reverter o indeferimento de seu registro. A exclusão definitiva dos votos dele do cálculo dos válidos pode fazer Douglas Ruas (PL) ultrapassar os 50% e ser declarado eleito no primeiro turno. A definição depende da Justiça Eleitoral. 


Seu Mércio emendou:

 

— Se tem alguém que pode ficar cem por cento satisfeito com as urnas, é o Douglas Ruas. O eleitor apertou 10 no Garotinho e pode acabar ajudando o 22 a vencer no primeiro turno. E há quem diga que as teclas nem estavam coladas! 

 

Expliquei que nenhum voto muda de candidato. O que pode diminuir é o total de votos válidos usado para calcular os percentuais.

 

— Então a urna contou certinho. Essa história é que ainda tem conta para fechar.

 

Ao fundo, a música aumentou. Seu Mércio avisou que precisava desligar, mas deixou uma última observação:

 

— Por enquanto, a urna é a queridinha do momento. Vamos ver se esse namoro aguenta a decisão no Rio e o resultado do segundo turno. Agora vou voltar para o meu chope, que esse eu prefiro conferir pessoalmente.


Cenas para os próximos capítulos.