Ainda estou tentando entender a estratégia do governador
Estou até agora tentando entender as razões que levaram a campanha de Jorginho Mello a colocar no ar uma propaganda resgatando a prisão de João Rodrigues, ocorrida há oito anos.
A peça foi programada para circular nas inserções ao longo do dia e uma delas foi exibida justamente em um dos intervalos do debate da NDTV deste sábado — debate do qual Jorginho não participou.
Com todo respeito, de verdade, aos grandes estrategistas do marketing político, a gente também vem estudando esse jogo há bastante tempo. E não apenas estudando. Ao longo dos últimos 30 anos, acompanhei e trabalhei em campanhas políticas, algumas delas inclusive na coordenação.
Não sou dono da verdade. Longe disso. Mas algumas estratégias não mudam tanto assim.
Ataque pessoal é sempre uma operação de risco. Pode atingir o adversário, mas também pode produzir o efeito contrário: transformá-lo em vítima, despertar solidariedade e criar um fato novo que foge do controle de quem iniciou o ataque.
E é justamente aí que começo a não entender a estratégia adotada pela campanha de Jorginho.
As pesquisas registradas e divulgadas mostram o governador muito à frente. A Quaest desta semana apontou Jorginho com 54%, João com 13% e Gelson Merisio com 10%.
Quem lidera com tamanha vantagem normalmente administra o resultado, evita riscos desnecessários e não oferece ao adversário a oportunidade de criar um fato novo na reta final.
E, de certa forma, é exatamente o que Jorginho vinha fazendo nos debates.
O governador participou do debate do SBT. Informações de bastidores dão conta de que levantamentos internos da campanha avaliaram mal o desempenho e, depois disso, Jorginho passou a evitar novos confrontos. Já faltou aos debates da Acaert e da NDTV.
A lógica parece bastante clara: se está na frente, para que correr riscos?
Só que, ao mesmo tempo em que evita o risco dos debates, sua campanha faz uma jogada de altíssimo risco ao mexer numa questão pessoal do adversário.
João reagiu ao lado da esposa, Fabiana, falou das filhas, relembrou o sofrimento daquele período e terminou o vídeo pedindo desculpas a elas. Durante o debate da NDTV, Gelson Merisio, adversário de João, manifestou solidariedade ao candidato do PSD.
Ou seja, uma propaganda feita para atingir João acabou dando a ele a oportunidade de responder pelo terreno mais sensível possível: a família.
E existe ainda uma questão que não pode ser ignorada.
Há uma diferença entre aquilo que mostram as pesquisas registradas e aquilo que se ouve nos bastidores sobre pesquisas internas e trackings das campanhas.
Os números públicos apontam, até agora, a possibilidade de vitória de Jorginho no primeiro turno. Já informações que circulam nos bastidores dão conta de levantamentos internos trabalhando com a possibilidade de segundo turno.
Esses números internos não são públicos. Portanto, não há como conferi-los nem tratá-los como fato.
Mas, se estiverem próximos da realidade, talvez ajudem a explicar a mudança de comportamento da campanha.
Porque um segundo turno seria outra eleição. Dois candidatos, mais tempo de televisão, confronto direto e uma campanha completamente diferente.
Se, por outro lado, Jorginho está enxergando internamente o mesmo cenário confortável mostrado pelas pesquisas públicas, fica ainda mais difícil compreender uma jogada desse tamanho a oito dias da eleição.
Ao mesmo tempo em que evita os debates para não correr riscos, sua campanha ressuscita um episódio de oito anos atrás, coloca a família do adversário no centro da discussão e entrega a João Rodrigues um assunto para explorar durante a última semana.





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