Primariamente, o debate sobre o desenvolvimento econômico volta a ocupar posição central nas discussões contemporâneas, especialmente em países marcados por desigualdades históricas, dependência tecnológica, instabilidade produtiva e dificuldades de inserção soberana na economia internacional. Nesse cenário, o neodesenvolvimentismo surge como uma tentativa de atualizar a tradição desenvolvimentista, buscando conciliar crescimento econômico, fortalecimento do Estado, ampliação da capacidade produtiva nacional, inclusão social e responsabilidade fiscal. Mais do que uma simples retomada de antigas políticas industriais, trata-se de uma proposta que procura responder aos limites do neoliberalismo e às novas exigências de uma economia globalizada, financeirizada e tecnologicamente dinâmica.
De outro vértice, o desenvolvimentismo clássico teve papel relevante em diversos países latino-americanos ao longo do século XX. Sua principal característica foi a defesa da industrialização como caminho para superar a condição periférica e reduzir a dependência em relação às economias centrais.
Para isso, o Estado assumiu função estratégica, promovendo investimentos em infraestrutura, protegendo setores industriais emergentes, criando empresas públicas e conduzindo políticas de substituição de importações. Esse modelo contribuiu para a formação de parques industriais, expansão urbana e modernização econômica, mas também apresentou limites, como concentração de renda, baixa eficiência em alguns setores, endividamento externo e dificuldades de adaptação às transformações internacionais.
Destarte, a partir das últimas décadas do século XX, o avanço das políticas neoliberais propôs uma inflexão profunda nesse caminho. A abertura comercial, a privatização de empresas estatais, a desregulamentação econômica e a centralidade do mercado passaram a orientar grande parte das decisões públicas. A promessa era de que a redução da intervenção estatal aumentaria a eficiência, atrairia investimentos e promoveria estabilidade. No entanto, em muitos casos, os resultados foram contraditórios.
Houve controle de processos inflacionários e modernização de determinados setores, mas também crescimento da vulnerabilidade externa, desindustrialização precoce, precarização do trabalho e ampliação da dependência em relação ao capital financeiro.
É nesse contexto que o neodesenvolvimentismo se apresenta como alternativa. Ele não defende o retorno puro e simples ao modelo antigo, nem propõe a negação completa do mercado. Sua principal contribuição está em reconhecer que o desenvolvimento exige coordenação entre Estado, setor produtivo e sociedade. O mercado pode ser importante na alocação de recursos, mas não é capaz, por si só, de corrigir desigualdades estruturais, induzir inovação tecnológica, garantir investimentos de longo prazo ou assegurar umaestratégia nacional de desenvolvimento. Por isso, o Estado volta a ser compreendido como agente planejador, regulador e indutor.
Entretanto, no horizonte neodesenvolvimentista, o crescimento econômico não deve ser tratado como fim em si mesmo. Ele precisa estar associado à geração de empregos qualificados, ao aumento da produtividade, à elevação dos salários, à redução das desigualdades e ao fortalecimento da capacidade nacional de produzir bens e serviços de maior valor agregado. Um país que se limita à exportação de commodities ou à importação de tecnologia tende a permanecer em posição subordinada na divisão internacional do trabalho. Assim, políticas industriais, científicas e tecnológicas tornam-se instrumentos fundamentais para construir autonomia econômica e ampliar a competitividade.
Outro ponto central jaz na necessidade de equilíbrio macroeconômico. O neodesenvolvimentismo não ignora a importância da estabilidade fiscal, do controle inflacionário e da responsabilidade na gestão pública. Entretanto, diferencia-se de visões excessivamente restritivas ao defender que o ajuste fiscal não pode inviabilizar investimentos públicos essenciais. Infraestrutura, educação, saúde, saneamento, ciência, tecnologia e inovação são áreas que influenciam diretamente a produtividade e a qualidade de vida da população. Cortes indiscriminados podem produzir aparente equilíbrio no curto prazo, mas comprometem a capacidade de desenvolvimento no longo prazo.
Outrossim, a política cambial ocupa lugar relevante nesse debate. Uma taxa de câmbio excessivamente valorizada pode baratear importações e gerar sensação imediata de aumento do poder de compra, mas tende a prejudicar a indústria nacional, reduzir exportações de maior complexidade e enfraquecer cadeias produtivas internas. O neodesenvolvimentismo defende uma política econômica que preserve a competitividade produtiva, evitando que o país se torne apenas consumidor de bens industrializados produzidos no exterior. A valorização da produção nacional, nesse sentido, não significa fechamento da economia, mas inserção internacional mais estratégica e menos dependente.
Todavia, no campo social, o neodesenvolvimentismo compreende que políticas de distribuição de renda e inclusão social não são obstáculos ao crescimento, mas componentes essenciais de um projeto de desenvolvimento. A ampliação do consumo popular, quando articulada ao fortalecimento da produção interna, pode dinamizar a economia, estimular investimentos e melhorar as condições de vida. Contudo, para que esse processo seja sustentável, é necessário combinar transferência de renda, valorização do trabalho, qualificação profissional, expansão educacional e aumento da produtividade. A inclusão pelo consumo precisa ser acompanhada pela inclusão produtiva e cidadã.
Destarte, o tema ambiental se impõe como uma das maiores diferenças entre o desenvolvimentismo clássico e o neodesenvolvimentismo contemporâneo. Não é mais possível pensar desenvolvimento apenas como expansão industrial e crescimento do produto interno bruto. A crise climática, a degradação ambiental e a transição energética exigem um novo padrão de produção. Nesse sentido, o neodesenvolvimentismo precisa incorporar a economia verde, a reindustrialização sustentável, a proteção dos recursos naturais e o investimento em tecnologias limpas. Para países como o Brasil, essa agenda representa desafio e oportunidade, pois combina biodiversidade, matriz energética relativamente favorável e grande potencial produtivo.
Contudo, a construção de um projeto neodesenvolvimentista enfrenta obstáculos expressivos. Entre eles estão a força dos interesses financeiros, a instabilidade política, a baixa capacidade de planejamento de longo prazo, a fragmentação institucional, a desigualdade regional e a dependência tecnológica. Além disso, políticas públicas de desenvolvimento exigem continuidade, coordenação e avaliação permanente. Sem instituições sólidas e sem capacidade técnica do Estado, o risco é transformar boas intenções em programas desarticulados, com baixa eficiência e pouca capacidade transformadora.
Do mesmo modo, é necessário evitar que o neodesenvolvimentismo seja confundido com simples aumento de gastos públicos ou proteção indiscriminada de setores econômicos. O desenvolvimento exige escolhas estratégicas, metas claras, controle social, transparência e compromisso com resultados. Proteger setores improdutivos, financiar grupos sem contrapartidas ou ampliar investimentos sem planejamento pode gerar distorções e comprometer a confiança pública. O Estado indutor precisa ser também um Estado eficiente, técnico e comprometido com o interesse coletivo.
No horizonte, o neodesenvolvimentismo aparece como uma possibilidade de reconstrução da capacidade nacional de planejar o futuro. Ele propõe superar a falsa oposição entre Estado e mercado, reconhecendo que ambos possuem funções importantes, mas que o desenvolvimento não ocorre espontaneamente. É necessário projeto, coordenação, investimento e compromisso social. Em países periféricos, a ausência de estratégia tende a aprofundar dependências e desigualdades. Por outro lado, uma política econômica orientada ao desenvolvimento pode abrir caminhos para maior soberania, inovação, inclusão e sustentabilidade.
Em epítome, o neodesenvolvimentismo econômico não deve ser visto como fórmula pronta, mas como horizonte de reflexão e ação. Seu valor está em recolocar o desenvolvimento no centro da agenda pública, articulando crescimento, justiça social, capacidade produtiva, equilíbrio macroeconômico e responsabilidade ambiental. Diante dos desafios contemporâneos, pensar o desenvolvimento significa pensar o tipo de sociedade que se deseja construir.
Por final, nesse sentido, o neodesenvolvimentismo oferece uma alternativa relevante para países que buscam superar a dependência, reduzir discrepâncias e afirmar um projeto nacional capaz de responder às exigências do século XXI.
Prof. Dr. Adelcio Machado dos Santos (Jornalista (MT/SC 4155)






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